Gradually, then suddenly
20 anos de coadjuvante. E então, de repente, os ETFs viraram protagonistas.
Por Arthurito Faria Lima
“Como você foi à falência?” “De duas formas. Gradualmente, e então de repente.”
— Ernest Hemingway, O Sol Também se Levanta
Fala, velhotes.
Hemingway escreveu isso em 1926 pensando em ruína financeira. Mas a ideia central ficou mais conhecida pela turma de tecnologia e startups
O Vale do Silício se apropriou da frase para descrever como toda grande disrupção tecnológica acontece: anos de adoção lenta, quase invisível, enquanto o produto resolve problemas reais de um nicho pequeno — e então, quando o timing, o preço e o comportamento do consumidor se alinham, a curva de adoção explode. Foi assim com a internet, com o smartphone, com o streaming e tantas outras
A lógica é sempre a mesma: a transformação parece lenta até o momento em que parece inevitável.
O mercado de ETFs no Brasil acabou de completar exatamente esse ciclo.
20 anos de “gradualmente”
Tudo começou em 2004 com o PIBB11, o primeiro ETF brasileiro, lançado com apoio do BNDES. Levantou R$ 600 milhões e animou o mercado. Depois... quase nada por uma década inteira.
Em 2013, após nove anos, a indústria tinha sete gestoras, quinze fundos e R$ 2,8 bilhões sob gestão — menos de 0,2% da indústria de fundos brasileira, que hoje soma R$ 10 trilhões. Em 2023, depois de mais dez anos, chegou a R$ 47 bilhões e 0,7% do mercado.
Cresceu?
Sim.
Impressionou?
Não.
O mercado parecia condenado a ser nicho para sempre. E tinha uma razão clara para isso.
Os problemas reais que o ETF resolve mas que a indústria não explicava direito
Durante esses anos todos, o investidor brasileiro tinha problemas concretos que nenhum produto resolvia bem ao mesmo tempo:
Custo. Fundos ativos de ações e multimercados cobram taxas de administração de 1,5% a 2% ao ano — mais performance fee quando entregam. Numa indústria onde a maioria desses fundos não consegue superar o CDI de forma consistente, o investidor estava pagando caro para ter resultado médio. ETFs cobram frações disso, muitas vezes menos de 0,1% ao ano.
Liquidez. Muitos fundos têm regras de resgate que parecem cláusula de contrato de obra pública: D+30, D+60, janelas específicas. O ETF negocia em bolsa como uma ação — você compra e vende na hora que quiser, pelo preço que o mercado define.
Complexidade técnica. Escolher os fundos certos exige análise de gestora, histórico, risco, correlação de portfólio. A maioria das pessoas não tem tempo nem ferramentas para isso. Com um ETF de índice amplo, você compra o mercado inteiro de uma vez, sem precisar acertar qual gestor vai performar nos próximos anos.
Dependência do assessor. Durante anos, a agenda de investimentos do brasileiro foi controlada pelos gerentes de banco e depois pelos assessores, que recomendavam, muitas vezes, o que mais interessante para a instituição. O crescimento do modelo de assessoria independente e, mais recentemente, do modelo fee-based — onde o consultor é remunerado pelo cliente, não pelo produto — abriu espaço para recomendações mais alinhadas. E ETFs são o produto natural desse alinhamento.
Quando esses quatro problemas se tornaram visíveis ao mesmo tempo, o mercado respondeu.
E então, de repente
Foram necessários 20 anos para os ETFs chegarem a R$ 50 bilhões. E apenas dois para mais que dobrar, atingindo R$ 108 bilhões e 187 fundos disponíveis. A indústria rompeu pela primeira vez a barreira de 1% do mercado total de fundos.
Nos Estados Unidos, esse mesmo movimento aconteceu após 2008, quando a crise expôs os custos escondidos dos fundos ativos e acelerou a migração para o modelo fee-based. Hoje, os ETFs americanos administram US$ 13,5 trilhões, cerca de 37% de toda a indústria de fundos. O Brasil está no mesmo caminho, com o atraso típico de quem aprende observando.
Para você ter uma idéia, os hedge funds mais que triplicaram a sua alocação em ETFs nos últimos 3 anos, chegando em 9% dos ativos segundo os formulários 13F. Gestoras quants como Millennium, Citadel e AQR os utilizam para diversos fins (incluindo operações de caixa, posições vendidas etc).
Antes eles eram contra, depois viraram uma competição, hoje são “amigos-inimigos”.
Além do básico: o acesso a teses que o Brasil não oferece
Até aqui falamos dos benefícios mais conhecidos dos ETFs, custo, liquidez, simplicidade. São motivos suficientes para qualquer investidor considerar a classe.
Mas há um segundo nível de valor ainda pouco explorado:
O acesso a teses temáticas globais que simplesmente não existem no mercado local.
Quer se expor à inteligência artificial, à cadeia de semicondutores, à infraestrutura de data centers, à transição energética nos EUA ou ao envelhecimento populacional no Japão? Não há ação brasileira que entregue isso. Há ETF.
É aqui que entra o Global X, uma das maiores casas de ETFs temáticos do mundo, com mais de 150 fundos cobrindo teses que vão de robótica e biotecnologia a infraestrutura e mercados emergentes. A proposta é direta: em vez de tentar escolher a empresa certa dentro de um tema complexo, você compra o tema inteiro, com a diversificação e a eficiência que um ETF entrega.
O que vem pela frente
O mercado de ETFs no Brasil chegou ao 1% da forma que toda grande transformação chega: gradualmente, e então de repente. A estrutura está montada, os catalisadores estão em movimento, e o investidor está mais preparado do que nunca para entender o que está comprando, e por que está pagando por isso.
A pergunta não é mais se os ETFs vão crescer. É quanto!
Abraço e até o próxima semana!
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Belo artigo e ótima referência a um dos meus livros favoritos!